É engraçado como certos pensamentos do passado vez por outra tornam a incomodar. Não remontam fatos realmente marcantes, são lembranças de coisas bestas, como aquela vez em que a angustiante demora dele responder no MSN foi pra te dedicar uma canção ou como aquela rua cheia de lombadas, antes nunca notada, arrancava comentários quando passavam juntos, ou quem sabe aquele sorvete de Laka que remete ao dia em que vocês fizeram um desastre na cozinha. E bate uma saudade diferente, aquela saudade que grita baixinho (sim, com esse paradoxo do grito sussurrado mesmo, pra ilustrar a indefinição do momento), que tem medo de se mostrar presente e escolhe os momentos mais aleatórios e inoportunos pra se manifestar.
Daí você se pega avaliando casa momento, cada pequena situação, cada olhada de canto ou alteração sutil no tom de voz que possam indicar um sinal de que ele se importa ou algum dia se importou. Passa a imaginar que a maneira como aquela vírgula foi colocada numa frase dele pode querer dizer que há um sentimento muito grande por trás, ou mesmo aquele "Bom Dia" dito diferente pode querer passar uma mensagem bem diferente de cordialidade matinal.
Diante de tantos sentimentos e lembranças contrapostos, só há mesmo que se pensar em uma saída: procurar conviver bem com o passado. Sossegar o coração, dar-se conta de que dificilmente se arranca a lembrança e que, enquanto houver a dor, por mais fina que ela seja, o latejar das feridas serve também pra lembrar do quanto podes se fortalecer no meio de tudo isso. Um dia, essas lembranças serão apenas causos contados pros amigos numa mesa de bar, arrodeados de risadas e "Cê acredita que isso aconteceu comigo? Digaí!".
(Maria Beatriz Saboya - http://drugstorephilosophie.blogspot.com)
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